segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Conto - Beijos que matam

Eu demoro um pouco, mas volto, rs.
Gente, que final de mês é esse? Eu estou atolada de coisas para fazer.
Preciso de férias :P
Bom, na falta de assunto vai mais um conto para vocês!!
Super beijos!

(Prometo voltar logo!)


Beijos que matam
Aos quinze anos, durante uma festa com as amigas, ela descobriu que era diferente de todas as garotas que conhecia.
Um belo garoto pediu para beijá-la e, querendo dar um clima especial ao primeiro beijo de sua vida, ela o levou ao quintal dos fundos onde poderiam ver as estrelas enquanto consumavam uma nova etapa em sua adolescência.
Talvez tivesse sido mágico e inesquecível, mas tornou-se apenas inesquecível.
Enquanto se beijavam, o garoto sufocou e desmaiou. Morreu, vítima de um ataque cardíaco.
Traumatizante.
Todos a incentivaram a não ter medo, diziam que se tratava de uma triste coincidência, que não tinha sido culpa dela, entre outras palavras de apoio que se escuta em um momento de desespero.
Levou um tempo, mas tomou coragem para tentar novamente, afinal, sua terapeuta gastou horas e horas a convencendo que não podia continuar carregando uma culpa que não era sua. Que era impossível matar alguém com um beijo.
É, pode ser. -pensou ela, tentando colocar rumo em sua vida.
Dessa vez tinha vinte anos. O rapaz, cinco anos mais velho, demonstrava interesse há algum tempo e parecia disposto a continuar tentando conquistá-la.
Arriscou.
No shopping, à tarde, marcaram de tomar um lanche e conversar. Aceitou a situação quando ele se inclinou para beijá-la.
O moço beijava bem e ela se empolgou com toda aquela emoção que estava sentindo. Quinze minutos depois estavam rodeados de bombeiros desesperados, que tentavam reanimação cardíaca no corpo jogado no chão.
Ela não os avisou que já havia passado por aquilo e que era tarde demais. Provavelmente seria presa. Apenas chorou, tendo certeza que nunca mais voltaria à terapeuta que disse que a culpa não era dela. Estava claro que era.
Decidiu que encontraria sozinha a causa.
Entrou para a faculdade de biomedicina e era uma das alunas mais brilhantes, no entanto, estava sempre solitária. Tinha medo de até que ponto sua doença poderia atingir as pessoas ao seu redor.
Ao se formar, fez questão de trabalhar em um laboratório para investigar novos vírus e bactérias. Isso permitia estudar seu caso também.
Não demorou a conquistar um cargo de chefe de departamento e ter ainda mais acesso a equipamentos e pesquisas.
Descobriu durante uma de suas análises um reagente em sua saliva que atingia diretamente as  artérias das pessoas que tivessem contato com a substância. Ao atingir sua vítima, o reagente encontrava uma forma de contaminar o sangue e rapidamente finalizava seu trabalho. 
Tinha então trinta e cinco anos, dois beijos que duraram no máximo cinco minutos e anos de estudo que tentavam explicar, mas que não eram suficientes para a busca de uma solução.
Se acreditasse em poderes sobrenaturais, poderia classificá-lo assim. Nem heroína e nem vilã, apenas mais uma vítima.
Sentia pavor de ser descoberta e entregue ao governo para experiências. Seria cobaia de testes e anunciada ao mundo como uma aberração.
Isso adicionava a sua personalidade uma mania de perseguição. Achava que os olhares e os cochichos estavam sempre voltados para suas atitudes diferentes.
Embora algumas vezes, quando saia para trabalhar ou quando chegava, tivesse certeza de que era vigiada.
Sempre que isso acontecia, olhava com atenção tudo ao seu redor, mas nada parecia fora do contexto de sempre: vizinhos conversando, carros saindo e entrando de seus quintais, crianças gritando e correndo de um lado para o outro, cachorros latindo... Nada que pudesse alertá-la para alguma ameaça naquele bairro tranqüilo.
Certa noite, enquanto estava deitada em sua cama prestes a adormecer, a janela de seu quarto foi aberta com força, mas sem um arrombamento de fato. Parecia apenas aberta por um vento muito forte.
Ela sentia suas pernas tremerem por baixo do lençol de seda. O ar gelado achava caminho para sua cama.
Uma perna entrou. Não demorou para que o restante do corpo estivesse no quarto com ela.
O homem misterioso, cujo rosto estava escondido pela ausência de claridade, caminhou até a cama.
Queria correr, gritar, mas estava paralisada.
Os traços do rosto desconhecido ficavam mais definidos com a proximidade. E era muito bonito.
Ele se inclinou sobre ela. Tentaria beijá-la.
Precisava impedi-lo. Precisava avisá-lo que isso o mataria. Mas antes que pudesse ter qualquer reação o homem a agarrou em um beijo ardente.
Primeiro ela ficou tensa, já sabendo o que esperar. Em seguida, notou que o homem não demonstrava qualquer reação de sufocamento ou angústia. E então entregou-se à sensação.
O homem a soltou com a mesma violência com que a agarrou.
Sem olhá-la novamente simplesmente virou as costas e partiu, utilizando a mesma janela.
Ela encontrou forças para se levantar e tentar procurá-lo. Nada. Somente a madrugada que começava naquele silêncio perturbador.
Passou os dias seguintes tentando acreditar, ou não, no que havia acontecido. Podia ter sido um delírio, mas a sensação boa do beijo não havia partido. Pelo contrário, ela desejava mais. Aquele tinha sido o único homem capaz de beijá-la sem morrer e ela nem havia perguntado seu nome.
Por noites ficou acordada observando a janela, ansiando que ele voltasse. 
Duas semanas depois, quando estava quase perdendo a esperança, a cena se repetiu. Dessa vez ela teve coragem. Assim que ele se virou para ir embora ela o abordou:
_Fique, por favor.
O homem parou onde estava e, sem olhá-la, respondeu:
_Você não ficaria feliz com o resultado.
_Como pode saber? Eu vivi solitária a minha vida inteira. Matei todos os homens que me atrevi a tentar amar. Passei a ser uma mulher fria, indiferente... Não quero mais viver desse jeito.
_Tem certeza do que está dizendo?
Ela refletiu por um segundo. Ele está me ameaçando?
_Sim. Eu tenho certeza. Você despertou em mim um desejo profundo. E não poderei mais viver sem isso.
_Saiba que você não é a única que viveu sozinha. -após essas palavras ele se foi.
Ela imediatamente se levantou. Foi ao banheiro.
Abriu o armário e pegou um dos potes descartáveis para exames que guardava em sua casa para pesquisas. Cuspiu um pouco no recipiente e, no dia seguinte, levou ao laboratório.
Suas suspeitas se confirmaram. O dobro de reagentes. Ele também tinha a doença.
Não se tratava de uma ameaça, portanto, mas de um aviso.
Aguardou a nova visita. Dessa vez tinha certeza que ele voltaria.
O tempo de espera foi menor. Em uma semana ele adentrava sua janela novamente.
Não estava tão sério quanto das outras vezes. Parecia ansioso.
Antes de se aproximar dela, falou:
_Então, você descobriu tudo.
_Sim, temos o mesmo agente biológico. Por isso você não morreu quando me beijou. Era você que me vigiava, estou certa?
_Está. Eu estava no shopping quando o último rapaz que você beijou morreu. Conseguiu enganar a todos menos a mim, que conheço os efeitos. Desde então estou te acompanhando, esperando você descobrir a cura.
_E porque não se aproximou?
_Tive medo. Acho que me apaixonei depois de te observar por tanto tempo.-ocorreu um momento de silêncio._Quer que eu vá embora?
_Não. Quero que fique comigo essa noite e para sempre.
Ele sorriu um pouco acanhado, e se aproximou.
_Tem certeza? Sabe que...
_Não fale mais nada. Eu sei o que quero.
****
O laboratório percebeu a ausência de uma de suas melhores funcionárias.
Colegas tentaram contato. Nenhum telefone atendia e os vizinhos disseram que não a tinham visto sair de casa.
A polícia foi acionada.
O que encontraram naquele quarto foram dois corpos, nus e abraçados.
A perícia não conseguiu identificar a causa. Aparentemente, morte natural de ambos.
Não havia sinais de violência e nem de suicídio.
O mais interessante foi que, mesmo mortos, os amantes mantinham um sorriso em seus rostos.
Felizes, ainda que no final.

6 comentários:

  1. Adorei a forma com que conduziu o conto, no entanto, achei um pouco contraditório eles terem morrido no final. Foi por intoxicação de tantos beijos contaminados?
    Parabéns Gisele, você escreve muito bem.

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  2. Oi Gi,

    O conto é fantástico! Seriam Romeu e Julieta sem as famílias? Enfim, prendeu atenção até o final.

    Beijos.

    Lu

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  3. Hehehehehhehehehhe ô louco! Os dois morreram? Puxa fiquei triste... Eles não poderiam viver felizes pra sempre?

    Muito bom seu conto e a forma descontraída que escreve. Gostei muito!

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  4. O Andrezinho é óóóóótimo! Sabe que eu gosto de histórias que não tem o tal "Happy and"!

    Ah, vc está igual eu... sumindo! ahahah... demorei pra escrever a última postagem! Mas, consegui... ah, quero fazer um post sobre o livro que ganhei de seu blogue. Só estou esperando o outro que ganhei, da Jane Austen, chegar...

    bjinhos ;) JoicySorciere => Blog Umas e outras...

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  5. Nossa, Gisele
    Sensacional, uma visão trágica de "cada pé torto tem seu chinelo velho", mas muito legal.
    bjokk,
    Cármen Machado.(Ideias de canário)

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  6. Adorei o conto,
    beijos e bom dia amore.

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